Deus salve a América do Sul


A sabedoria e beleza de quem tem mais de um século vida:

http://www.youtube.com/watch?v=p2bL4z26CnA

 



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De Roma para o Brasil

“O Papa concorda em transferir-se de Roma para o Brasil”, o devaneio do personagem de Dostoiévski em Memórias do subsolo parece realizado. Sempre me alegrava a idéia de que o Brasil, embora mais deseducado, fosse mais moderno que países vizinhos - como Argentina, Chile, Uruguai. Que bobagem! Além de deseducados, somos todos atrasados (ou atrasados porque deseducados). Portanto, nada mais coerente que a transferência deste papa para o Brasil neste final do 2º turno. O tema da descriminalização do aborto, que ocupou o centro dos debates nas eleições que se encerram amanhã é o retrato acabado da cultura política autoritária que assola este país e vizinhos, pois qualquer pessoa razoável sabe que o melhor para a democracia é o debate livre e a deliberação autônoma, que a descriminalização do aborto promoveria. O melhor à democracia e ao combate à prática do aborto, tão comum entre nós. Num ambiente de liberdade, seria uma disputa seguramente vencida por aqueles que se opõem ao ato, pois ninguém sai às ruas defendendo a prática, segurando cartazes com incentivos do tipo: “Pratique o aborto, faz bem à saúde mental, já tem gente demais no mundo etc.”. Não, só se manifestam os contrários e o efeito é muito mais promissor´para coibir a prática. Mas aqui e nos países vizinhos, mais educados, todavia igualmente antidemocráticos, proibir parece sempre melhor solução.  



 Escrito por angel às 10h34 [] [envie esta mensagem] []






Informação democrática

Comunicação democrática, a despeito das contribuições da internet, é algo inexistente, ainda mais no Brasil, onde a maioria sequer tem acesso à internet e a informação vem mesmo via televisão. Neste contexto, se Dilma Rousseff for eleita (e espero que seja), será preciso construir/ampliar decisivamente a base de apoio na mídia. Além da Carta Capital, o governo federal deve tornar-se um grande assinante/anunciante da Isto é, por exemplo. Repartições públicas devem ganhar assinaturas de revistas amigas (e seria boa idéia e um agrado aos leitores a assinatura da Isto é Gente, para contrapor à revista Caras, afinal todo mundo tem direito a informação/desinformação). Toda compra às editoras deverá privilegiar empresas sem qualquer relação (mesmo que estritamente comercial, se é que existe) com a dupla PSDB/DEM e emissoras como a Record e SBT deverão ter tratamento privilegiado da parte de um governo Dilma. É fornecer armas aos inimigos falar em controles externos dos meios de comunicação de massa (quem propõe isso é no mínimo ingênuo). Pela "minha proposta", a oposição terá o PIG (Partido da Imprensa Golpista) e o governo federal o PID (Partido da Imprensa Dilmista ou “Democrática”). Não, eu não tenho qualquer simpatia pela concepção da política como relação amigo-inimigo,  mas não dá para ser idiota num país elitista e autoritário como esse. E, menos que "maquiavelismo" (no sentido condenado em post anterior), trata-se aqui de "guerra de posição".

 



 Escrito por angel às 12h36 [] [envie esta mensagem] []






Inveja

Que inveja da Dilma! Primeiro café da manhã com Benício Del Toro, agora abraços do Chico Buarque...



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VLADIMIR SAFATLE (Folha de São Paulo, 18/10/2010)
Os números e o futuro

Desde a Antiguidade, os homens voltam-se aos números para tentar desvendar o futuro. Talvez haja alguma sabedoria neste comportamento. Podemos testá-lo perguntando aos números como será o Brasil depois desta eleição presidencial.

Analisemos a hipótese do candidato oposicionista, José Serra, ganhar. Seu partido conseguiu eleger apenas 53 deputados. Os outros partidos que o apoiam (DEM, PPS, PMN e PT do B) conseguiram 62 deputados. Não se vai muito longe com uma base de 115 deputados em uma Câmara com 513 membros. Será necessário compor com partidos que fizeram parte da coligação do governo, como PMDB, PP e PR. Partidos conhecidos pelo seu perfil radicalmente fisiológico. Políticos costumam dizer que não fazem loteamento de cargos, que são capazes de tecer alianças programáticas com os "melhores" de cada partido. Qualquer pessoa sensata, ao contrário, sabe que partidos como estes cobrarão muito alto para dar sustentação parlamentar ao governo, já que eles sabem que a maioria governista será frágil. Todas as vezes que uma proposta importante for votada, eles colocarão a faca contra a garganta do Executivo para exigir mais um ministério de "porteira fechada". Ainda mais porque haverá uma forte oposição (se levarmos em conta o PT mais os partidos que giram em torno dele, como o PC do B, PSB e PDT) de 165 deputados. A situação no Senado é mais dramática, pois o possível governo Serra teria apenas 19 de 81 senadores. Tais números, por si só, indicariam um governo refém de negociações intermináveis. No entanto, há ainda um dado novo. É consenso que o vencedor desta eleição ganhará por margem estreita. Isto nunca ocorreu desde a redemocratização. Ou seja, a sociedade brasileira assistiria à posse do próximo presidente dividida e (a levar em conta o nível do debate atual) profundamente acirrada. Serra teria que fazer frente à oposição popular, vinda de quem perdeu por muito pouco, apelando sistematicamente àqueles setores que impulsionaram sua campanha na reta final -a saber, a ala mais reacionária das igrejas, o "cinturão do agronegócio" e os arautos do pensamento conservador nacional. Ou seja, um governo minoritário refém de setores obscuros do atraso para fazer frente à oposição. Mas ainda há algo que os números não mostram. Mesmo entre seus aliados, é consenso que a personalidade de José Serra é, digamos, bonapartista. Caracterizado por ser centralizador e avesso à crítica (basta ver sua coleção de reações destemperadas a jornalistas que lhe colocam perguntas incômodas), José Serra mostrou inabilidade até para sustentar sua coligação (o PTB a abandonou por se sentir desprestigiado). Sua capacidade de negociação é limitada, vide a novela da escolha de seu vice. Governo minoritário, sociedade acirrada, presidente bonapartista. Desde a eleição de Fernando Collor, o Brasil não conheceu uma situação com tais componentes. Para não deixar muito à mostra esta realidade problemática que os números mostram, talvez o melhor seja mesmo discutir crenças religiosas e correr atrás de mulheres que abortam.


VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP



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Folha de São Paulo, 16/10/2010

Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna

Reportagem tentou ouvir mulher de candidato tucano por dois dias, sem sucesso

MÔNICA BERGAMO, COLUNISTA DA FOLHA

O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por "valores cristãos", que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra. Num evento no Rio, há um mês, a psicóloga teria dito a um evangélico, segundo a Agência Estado, que a candidata Dilma Rousseff (PT), que já defendeu a descriminalização do aborto, é a favor de "matar criancinhas". Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido. Depois do golpe militar no Brasil, Serra se mudou para o Chile, onde conheceu a mulher. Em 1973, com o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder, o casal se mudou para os Estados Unidos.

OUTRO LADO A Folha tentou falar com Monica Serra durante dois dias para comentar o relato das ex-alunas, sem sucesso. Um dia depois do debate da TV Bandeirantes, no domingo, 10, a bailarina Sheila Canevacci Ribeiro, 37, postou uma mensagem em seu Facebook para "deixar a minha indignação pelo posicionamento escorregadio de José Serra" em relação ao tema. Ela escreveu que Serra não respeitava "tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Monica Serra já fez um aborto". A mensagem foi replicada em outras páginas do site e em blogs. "Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático", escreveu Sheila no Facebook. "Devemos prender Monica Serra caso seu marido fosse [sic] eleito presidente?"

À Folha a bailarina diz que "confirma cem por cento" tudo o que escreveu. Sheila afirma que não é filiada a partido político. Diz ter votado em Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno. No segundo, estará no Líbano, onde participará de performance de arte. Se estivesse no Brasil, optaria por Dilma Rousseff (PT). Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, que foi aluna de mestrado na USP de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993. Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado pela primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008). Militante feminista, Majô foi candidata derrotada a vereadora e a vice-prefeita em Osasco pelo PSDB. A socióloga disse à Folha estar "preocupada" com a filha, mas afirma que a criou para "ser uma mulher livre" e que ela "agiu como cidadã". Sheila é casada com o antropólogo italiano Massimo Canevacci, que foi professor de antropologia cultural na Universidade La Sapienza, em Roma, e hoje dirige pesquisas no Brasil. A Folha localizou uma colega de classe de Sheila pelo Facebook. Professora de dança em Brasília, ela concordou em falar sob a condição de anonimato. Contou que, nas aulas, as alunas se sentavam em círculos, criando uma situação de intimidade. Enquanto fazia gestos de dança, Monica explicava como marcas e traumas da vida alteram movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana. Segundo a ex-estudante, as pessoas compartilhavam suas histórias, algo comum em uma aula de psicologia. Nesse contexto, afirmou, Monica compartilhou sua história com o grupo de alunas. Disse ter feito o aborto por causa da ditadura. Ainda de acordo com a ex-aluna, Monica disse que o futuro dela e do marido, José Serra, era muito incerto. Quando engravidou, teria relatado Monica à então aluna, o casal se viu numa situação muito vulnerável. "Ela não confessou. Ela contou", diz Sheila Canevacci. "Não sou uma pessoa denunciando coisas. Mas [ela é] uma pessoa pública, que fala em público que é contra o aborto, é errado. Ela tem uma responsabilidade ética."

 



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O príncipe está nu

Posso estar enganada, mas essas eleições têm proporcionando em mim a sensação de que o candidato do PSDB, José Serra, tem uma concepção absolutamente maquiavélica da política e como todo “maquiavélico” se acha muito sagaz. Combinado a isso, o fato dele ter que ganhar as eleições ou o sonho de ser presidente da República (função para a qual ele afirma ter se preparado a vida toda!) estará muito provavelmente enterrado. Portanto, mais do que nunca a lógica dos fins justificarem os meios, atribuída à obra O Príncipe (interpretação bastante pertinente), parece dominar sua campanha. O problema é a leitura vulgar (ao pé da letra) dos ensinamentos do livro, sem a devida contextualização histórica. O Brasil do orelhão ficou para trás, vivemos na era da banda larga, não é mais tão fácil parecer sem ser. No horário eleitoral e campanhas/propagandas nos meios de comunicação em geral, assim como nos debates, o “Serrinha, paz e amor”, afinal só existe o “vulgo”. Mas nos bastidores temos visto a personalidade autoritária manifestar-se sempre que se sente contrariado, basta uma busca no youtube (escreva “Serra deu piti”) para se constatar que até Mirim Leitão já foi vítima da sua grosseria. Pior, é capaz de afirmar num dia desconhecer Paulo Preto para, no outro, elogiar o mesmo, como expõe capa da Isto é da próxima semana (e da Veja imaginária publicada no conversa afiada www.conversaafiada.com.br). Em defesa da candidata governista, Dilma Rousseff, pode-se dizer, ao menos, que ela demora um pouco mais para mudar de opinião. Sobre o aborto, aliás, corre na internet que a esposa de Serra teria confidenciado a ex-alunas da Unicamp ter interrompido uma gravidez à época da ditadura. Se verdade, ela assassinou uma criancinha (!!!) e o monstro pode devorar o criador, foram eles que fizeram do tema aborto o carro-chefe da campanha. Da minha parte, sequer pretendia votar no segundo turno, iria viajar, porém o nível da campanha obriga-me à participação contra o maquiavelismo vulgar ou não vulgar. A propósito, sou favorável a descriminalização do aborto.



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Exercício de futurologia

Considero que para Dilma Rousseff uma derrota eleitoral não seria tão ruim, na presidência sofreria uma oposição medonha dos meios de comunicação e muito desgastante para quem há pouco enfrentou outro tipo de câncer. Porém, para o povo brasileiro a continuidade do governo Lula seria o melhor. Não que o “lulismo” esteja acabado com uma vitória da oposição. Programas como o Bolsa Família e o Prouni, por exemplo, vieram para ficar, já fazem parte do mercado de votos brasileiro. E por certo que, se eleito, Serra será candidato à reeleição, a não ser que seja estabelecido algum acordo (com Aécio) a fim de acabar com a emenda da reeleição e estender o mandato para cinco anos. Mas mesmo que não seja candidato à reeleição (que não haja reeleição), desejará fazer o sucessor e/ou sair candidato ao Senado/governo estadual com uma boa votação. Portanto, dificilmente dará fim aos programas sociais mais populares do governo Lula, no máximo atacará as universidades criadas e uma ou outra política social menos popular.  E embora critique a política de juros do Banco Central, duvido que aja no sentido de uma inversão substantiva, o mesmo apostaria quanto ao BNDES, a despeito de críticas recentes duvido que vá alterar o “pacto financeiro-produtivista” do governo Lula, “desmamando as empresas” eleitas pelo Banco, como sugerido por Armínio Fraga. Ou seja, mesmo com José Serra, continuísmo é o mais provável: ortodoxia no BC e “desenvolvimentismo” no BNDES. Quanto ao pré-sal, pode ser que a equipe Serra prefira as privatizações, mas no máximo conseguirá impor um esquema público-privado, com o grosso dos investimentos recaindo sobre o Estado (não muito diferente do que seria num governo do PT). Tem ainda muito petróleo no mundo e a exploração do pré-sal é cara e arriscada. E posso me arrepender amargamente, mas também não apostaria numa maior privatização da Petrobras pelas mãos do Serra. Na minha modesta opinião, o problema maior será político: uma espécie de “chavismo” à direita, sem demagogia socialista (pois, na Venezuela, mais retórica que realidade) e sem oposição da mídia dominante (que ovacionará cada ato do presidente Serra), com o Executivo passando com um trator sobre os demais poderes. A maioria no Legislativo será cooptada (ainda que no Senado, a oposição possa permanecer forte) e os amigos tomarão conta de tudo (o Ministério Público que se prepare à guerra pela sobrevivência). Neste cenário, a democracia liberal estaria de fato debilitada. O Sr. Hélio Bicudo e companheiros podem se preparar para defendê-la, mas se o fizerem dificilmente terão a cobertura da mídia.



 Escrito por angel às 18h27 [] [envie esta mensagem] []






Vote em Dilma

De fato, a melhor razão para se votar em Dilma (além de não votar no PSDB depois da experiência FHC à frente do governo federal) reside no fato de que ela enfrentará uma oposição medonha da mídia, o que deve coibir a corrupção à frente do Estado (e não venham falar do caso Erenice, pois isso foi uma mixaria perto das denúncias envolvendo as privatizações de FHC/Serra, vide o livro do Byondi, O Brasil privatizado). Já o candidato Serra, se eleito, contará com os meios de comunicação de massa ovacionando cada ato seu e não há nada pior para a vida democrática que um chefe de Estado sem oposição da mídia (é muito pior que a ausência de oposição parlamentar), mas é claro que os meios de comunicação dominantes podiam ser mais democráticos/menos parciais na oposição ao governo Lula.  Se a hipótese da "ditadura-democrática" com Serra não for o bastante, considere a hipótese de ter uma primeira dama que tem a coragem de afirmar que a candidata do PT é a favor de "matar criancinhas" e depois ainda justifica dizendo que falou em crianças porque o interlocutor não entenderia a palavra feto (o que me pareceu esnobismo e preconceito contra os mais pobres). Aliás, se não estou enganada, ela não costumava participar/aparecer tanto nas campanhas anteriores, suspeitava até que ele a escondia devido a nacionalidade estrangeira (Mônica Serra é chilena), mas agora suspeito de outros motivos, mais razoáveis, diga-se de passagem.Todavia, eu votarei em Dilma Rousseff por uma razão definitiva, é a candidata do Chico Buarque e eu sempre votei com ele!



 Escrito por angel às 17h39 [] [envie esta mensagem] []






O debate

No último debate, a candidata do PT partiu para o ataque e, de maneira geral, o fez muito bem, só precisa aprender a atacar sem se alterar muito (ou seja, controlar a agressividade estampada no rosto e a sensação de raiva) e recorrer a um vocabulário mais simples e direto. Mas queria salientar algumas “bolas perdidas”. Por exemplo, tinha que ser mais clara ao se referir ao episódio da prefeitura de São Paulo, quando Serra chegou a registrar em cartório que não sairia antes do término do mandato e, menos de dois anos depois, lá estava ele, concorrendo ao governo (quem é mentiroso?). Quando o candidato falou em infra-estrutura, mencionando rodovias, a candidata do PT tinha que puxar o assunto dos pedágios. No tema do aborto, tinha que ser mais explícita quanto ao governo que liberou a pílula do dia seguinte e à “normatização técnica” mencionada por Serra, que, à época, levantou reações de setores religiosos, como a CNBB. Finalmente, é preciso mostrar a posição do candidato Serra sobre o MERCOSUL e as privatizações têm que dominar a pauta dos debates, menos simplesmente para condenar e, sim, para criticar a forma como foram realizadas - a “privataria” denunciada, a entrega de empresas inteiras ao capital estrangeiro quando o mais produtivo seria a associação com o capital nacional (joint ventures), os financiamentos do BNDES ao capital externo etc. É preciso defender que nada foi revisto porque é muito arriscado fazê-lo, devido aos efeitos implicados, como fuga de capitais, boicote internacional, instabilidade financeira. Só governos como o de Chávez arriscam neste sentido, ainda assim após a tentativa mal sucedida de golpe e a conseqüente guinada à esquerda e, claro, resguardado pelos recursos do petróleo. Ou seja, é muito complicado rever o mal feito...



 Escrito por angel às 09h29 [] [envie esta mensagem] []






O II PND

Segundo matéria do jornal O Globo (31/07/2010), tanto as controvérsias em torno do papel “desenvolvimentista” atual do BNDES como o II PND foram assuntos entre o atual presidente e Marcos Vianna, que presidiu o Banco entre 1970-1979, no lançamento do livro Memórias de uma revolução industrial, numa cerimônia fechada no BNDES. Indagado sobre se voltaria atrás ou reformularia as políticas “desenvolvimentistas” à época que presidia a Instituição, diante das críticas que sofreu posteriormente, o ex-presidente do BNDES teria sido enfático: “(...) Não nos acovardamos. Preferimos a saída pelo crescimento, passando a produzir bens de capital e outros itens que pesavam nas nossas importações ou que não tinham seu potencial de exportação devidamente explorado. Sem isso, talvez o Brasil não tivesse hoje condições de se tornar desenvolvido - afirmou Marcos Vianna, com a autoridade dos seus 75 anos”.

E conforme O Globo, Luciano Coutinho teria afirmado que o BNDES está sendo alvo de uma crítica conservadora, sendo que os repasses de títulos do Tesouro ao banco responderiam apenas por um terço do crescimento da dívida pública, os outros dois terços é responsabilidade do BC. Porém, à época do II PND, como afirmado na matéria em questão, as críticas eram as mesmas ("apadrinhamento" de empresas, subsídios indiretos a segmentos empresariais, estatização do crédito etc.) e não eram conservadoras – aliás, entre os críticos, salvo engano, estava o próprio Coutinho.

O II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) já suscitou inúmeras interpretações e o curioso, no que interessa aqui destacar, é que sequer à empresa estatal Petrobras foi possível impor integralmente o cumprimento de diretrizes fundamentais à estratégia, mormente a compra de produtos da indústria de bens de capital nacional, o setor priorizado pelo Plano. Neste aspecto, num artigo de título sugestivo - ¿Reviviendo el estado desarrollista? El mito de la “burguesía nacional” -, Vivek Chibber, comparando os casos da Índia, Turquia e Brasil, defende que a baixa institucionalização [poderíamos dizer, capacidade do Estado de impor um planejamento estatal de desenvolvimento], sempre se deveu a resistência da denominada [e idealizada] “burguesia nacional”:

 (…) los esfuerzos por reestructurar el estado en función de las necesidades del planeamiento industrial tendieron a ser vacilantes y episódicos, siempre cuidadosos de no provocar un ataque. Brasil fue una excepción dentro de los estados desarrollistas al no contar jamás con una verdadera agencia central de planificación. Si alguna vez se la propuso, fue siempre con muchísimos titubeos y de corta vida. (…) islas de planeamiento en un mar de hostilidad. De hecho, el estado desarrollista brasilero nunca aspiró a tener el mismo rango de poder sobre el capital local que las variantes turcas e indias. Se consolidó con más lentitud, más débil en sus fundamentos y más tímido en sus ambiciones –al menos en lo referente a la construcción del estado. Subyacía a esto una clase capitalista nacional mucho más hostil [à intervenção/direçao do Estado] que en los otros casos. (2005: 177)

Desta perspectiva, é elucidativo um artigo recente na coluna semanal de Emílio Odebrecht na Folha de São Paulo (09/05/2010), sobre o retorno do debate em torno do tamanho do Estado e sua participação na economia brasileira. Após definir o que se espera de todo governo (cumprimento dos seus papéis constitucionais de garantia à saúde, segurança e educação de boa qualidade, além de fazer valer o império da lei e garantir a segurança externa), o autor delimita “como o Estado pode também agir na economia”, salientando que o Estado não deve atuar no setor produtivo de forma ostensiva, nem intrometer-se naquilo que a iniciativa privada pode realizar - como a identificação dos investimentos que precisam ser feitos:

(...) sua ação deve ser a de indutor do desenvolvimento sustentável, e não a do governo-empresário. Por exemplo: investimentos industriais pedem financiamentos de longo prazo. Os bancos de desenvolvimento, tais como o BNDES, existem para isso, ou seja, para assegurar ao país condições de ampliar e modernizar sua capacidade produtiva. Eis aí, então, uma forma de presença salutar do Estado na economia. O investimento científico e tecnológico é outra área em que a ação estatal é bem-vinda, até porque pesquisa pura só o governo pode financiar. (...) [o Estado] Deve concentrar-se no cumprimento de suas atribuições e, quanto ao restante, o setor privado que se estruture para identificar no que efetivamente o Brasil é diferente - nas vocações e nos conhecimentos - e use sua competência na direção de investimentos que precisam ser feitos. (...) Não existe país forte com empresas fracas. E acredito no empresariado brasileiro, que é intuitivo, criativo, preparado e arrojado.

O problema é o segredo deste arrojo/criatividade do empresariado brasileiro: os financiamentos do BNDES.

 



 Escrito por angel às 10h10 [] [envie esta mensagem] []






Eleições 2010

 

No 1º turno votarei em Plínio de Arruda Sampaio - na verdade, votarei na legenda, PSOL - e foi o candidato que me levou a essa decisão, pois ele defende tudo que eu própria, sinceramente, defenderia, se fosse a candidata do partido (sem chances de vencer). No segundo turno, votarei, evidentemente, na candidata do PT. Não voto no PSDB e, embora os governos Lula tenham sido uma enorme decepção, ele foi o melhor presidente que este país já teve (e isto não é nenhum elogio) e é só por isso que a sua candidata pode vencer já no 1º turno. Porém, como é a auto-indulgência que define o ser humano é provável que, uma vez eleita, ela ache que votamos nela. E isso não tem a menor importância. O que interessa é que o "poste" forneça luz e como, em 2014, o candidato do PT será muito provavelmente o atual presidente, Luís Inácio Lula da Silva, a presidenta terá apenas quatro anos pela frente para imprimir uma marca pessoal a sua entrada na história como 1ª mulher a governar o país. Pode arriscar um pouco mais e fazer alguma diferença. Duvido que seja no sentido de uma inversão substantiva na política de juros, mas o BNDES deve aumentar ainda mais sua influência no governo, fazendo a felicidade do empresariado eleito pelo Banco. Ou seja, continuísmo é o mais provável - ortodoxia no BC e “desenvolvimentismo” no BNDES. Mas todos sabem que a política do Banco, de incentivo à formação de grandes grupos empresariais nacionais (via conglomeração/internacionalização), não levará muito longe se não for acompanhada de uma revolução no ensino fundamental - é a revolução educacional produzida na Coréia do Sul que precisamos copiar, menos que o estilo patrimonial de desenvolvimento para fora. A futura presidenta bem que poderia abrir caminho nesta direção, pois não adianta muito condicionar a bolsa família ao envio das crianças para uma escola que não presta. Não será tarefa fácil, pois dificilmente os detentores do poder econômico concordarão com a transferência de recursos públicos vultosos à revolução educacional (enquanto o estilo “patrimonial” de fortalecimento de grupos empresariais nacionais é muito bem-vindo), em todo caso, não custa tentar (ela não vai se reeleger mesmo) e qualquer progresso nesta direção seria lucro. Luz, quero luz.



 Escrito por angel às 11h21 [] [envie esta mensagem] []






O caso sul-coreano

A Coréia do Sul costuma ser apontada como um caso exitoso de desenvolvimento capitalista tardio, resultando na conformação de grandes conglomerados produtivos, geralmente liderados por clãs familiares, os denominados chaebols (Samsung, Hyundai, Daewoo, LG etc.). O papel do Estado sul-coreano na condução deste processo foi crucial, mas foi a debilidade do capital local após 35 anos de colonialismo e guerra civil devastadora, sem falar na divisão do país e a ameaça comunista ali ao lado, as condições prévias para o grau de autonomia que desfrutou o Estado desenvolvimentista sul-coreano (para estatizar bancos, fazer reforma agrária e empreender uma revolução educacional no país). E se a liderança do Estado (a “cenoura e o chicote”) foi decisiva para gerar empresas industriais gigantescas, capazes de competir globalmente, uma vez fortalecidas, estas empresas escapam, cada vez mais, à disciplina fiscalizadora do Estado, avançando, segundo Evans (1998), o clientelismo e a corrupção nas relações entre Estado e empresariado:

Este proceso trae a la memoria la visión de Marx de la burguesía «creando su propio enterrador»: el proletariado. Desde la perspectiva de Marx la burguesía necesitaba una clase trabajadora industrial para llevar a cabo su proyecto de acumulación. Por consiguiente, no tenía otra opción que producir un grupo cuyos intereses y agenda chocaban con los propios. Lo mismo podría decirse en el caso del Estado desarrollista y los grupos sociales que ayuda a nacer. Es precisamente el éxito de la transformación, y no su fracaso, lo que produce a los enterradores. (Evans, 1998:02)

Na segunda metade dos anos 1990, o incremento da autonomia da classe empresarial face o Estado (ou maior confusão/imbricação entre interesses públicos e privados), numa conjuntura internacional marcada pela possibilidade de financiamentos abundantes, as ambições desmedidas de expansão econômica e financeira dos grandes chaebols alimentaram comportamentos empresariais arriscados, fundamentais à compreensão da crise de 1997/98. E à medida que o setor privado passou a atrair mais profissionais talentosos, pagando melhores salários, a própria qualidade/integridade da burocracia decaiu, aumentando a corrupção e fortalecendo a “ideologia” da ineficiência estatal e apologia da iniciativa privada, cada vez mais encampada pelo empresariado coreano “cosmopolita”. Opinião similar a essa de Evans (1998) é a de Vivek Chibber (2005:187):

Una clase capitalista excepcionalmente unida [familiar] había, hacia principios de los 90, superado su necesidad de apoyo estatal como condición para el éxito de las exportaciones. Por ende, la asociación que había sustentado al estado desarrollista se disolvió, y el chaebol comenzó a reclamar el desmantelamiento del aparato de planeamiento. El fin del estado desarrollista no fue provocado ni por el FMI ni por EUA en la secuela de la crisis de 1997. Ese fue sólo el desenlace de los eventos críticos. El viejo aparato había caído en el desconcierto mucho antes bajo la presión del chaebol, y en realidad fue su previo desmantelamiento el que ocasionó la crisis.

As dificuldades impostas pela crise financeira de 1997/98 podem não ter levado as retrocessos estruturais significativos da capacidade industrial e tecnológica, porém não há dúvidas que a economia coreana (seguindo as orientações do FMI e aprofundando uma tendência em curso) avançou para um modelo bem mais aberto e “desnacionalizado” do final dos anos 1990 ao início deste século, estabelecendo associações e parcerias com empresas/capitais estrangeiros, especialmente de origem chinesa. E as parcerias/associações com a China não eliminam a concorrência internacional entre os dois países, sendo que o diferencial entre qualidade/quantidade tem se reduzido em detrimento do produto coreano (quantidade chinesa x qualidade coreana). Ou seja, se a associação com a China tem segurado a Coréia do Sul nas últimas crises, as relações entre os dois países são bastante contraditórias, sendo provável que a Coréia do Sul se torne, cada vez mais, dependente da China. E não obstante o sucesso dessa experiência de capitalismo tardio, elevando o país a uma posição de periferia de 1ª classe, suspeitamos que a Coréia do Sul, politicamente, esteja mais parecida com o Brasil; sem que economicamente, do Brasil em relação à Coréia do Sul, se possa dizer o mesmo, afinal o eixo dinâmico da economia coreana advém de uma atividade industrial voltada a produtos de alto valor agregado e bastante competitivos internacionalmente.

Enfim, se a autonomia do Estado brasileiro para dirigir/impor uma “estratégia” de desenvolvimento ao longo do processo de industrialização não é historicamente muito estimulante; o caso sul-coreano (que parece servir de inspiração ao atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho) precisa ser devidamente estudado e contextualizado e, da perspectiva atual, também não é muito animador.

Referências Bibliográficas:

CHIBBER, Vivek (2005). ¿Reviviendo el estado desarrollista?: el mito de la "burguesía nacional". In Socialist Register. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/social/2005/socialist2005.pdf

EVANS, Peter (1998). Alternativas al Estado desarrollista. Lecciones de la crisis de Asia oriental. Nueva Sociedad, no 155, mayo-junio 1998.



 Escrito por angel às 18h11 [] [envie esta mensagem] []






Bonapartismo "soft"

Domenico Losurdo, em Democracia ou bonapartismo, vai denominar de bonapartismo soft o moderno arranjo político e constitucional do Ocidente, caracterizado pelo predomínio das chefias do executivo sobre os demais poderes, aproximando os regimes democráticos do século XX às experiências ditatoriais anteriores (nascidas de golpes de Estado). O autor aborda o fenômeno da personalização da vida política nas democracias ocidentais – especialmente nos EUA - a fim de compreender como a democracia liberal, menos que contribuir para a emancipação política, mantém os indivíduos na condição de “multidão-criança”, que precisa ser conduzida pelo líder político. À diferença que, no mundo atual, a personalização da vida política encontra-se bem mais independente “da pessoa” do líder que nas experiências do século XIX e 1ª metade do século XX. O fenômeno do bonapartismo, agora soft, tornou-se sistêmico no sentido de intrínseco ao funcionamento do regime democrático tal como este foi se configurando a partir da 2ª metade do século XX. Este “modo de ser” da democracia atual é compreendido pelo autor tendo em vista “a distinção entre ditadura bonapartista de uma personalidade individual e regime bonapartista baseado numa sucessão ordenada e regulamentada, capaz de assegurar sua permanência no tempo” (2004: 326).

E é a própria configuração do regime democrático que levaria à aclamação plebiscitária do líder político. Por sua vez, a personalização da política – o bonapartismo soft –, produto das configurações institucionais da democracia liberal (e dos meios de comunicação de massa), abriria caminho à exceção, sem rupturas drásticas com a ordem jurídica e/ou democrática formal. O autor discorre historicamente sobre os processos de emancipação e des-emancipação política nos países centrais, ao longo dos séculos XIX e XX, enfatizando sempre a luta dos trabalhadores pela conquista e ampliação dos direitos e os retrocessos advindos da reação das classes dominantes, especialmente quanto ao sufrágio universal. Diante da sua inevitabilidade, mecanismos político-institucionais “neutralizadores” foram postos em prática, favorecendo a consolidação do bonapartismo soft: defesa do sistema majoritário em detrimento do proporcional, do legislativo bicameral ao invés de unicameral, do voto distrital uninominal, preferência pelo sistema bipartidário, oposição ao sistema de lista fechada etc.

O corolário deste processo seria o regime democrático atual, no qual o princípio da divisão dos poderes e os partidos políticos estariam enfraquecidos pelo primado de um poder executivo exercido de forma personalizada, com o sufrágio universal transformado em instrumento plebiscitário de lideranças políticas graças “ao poder totalitário dos mass-média monopolizados pela grande burguesia”. Neste mundo, seria irrelevante o debate entre “democracia direta versus democracia representativa”, pois o povo encontrar-se-ia desprovido de meios político-espirituais e/ou econômicos para decisões políticas autônomas, cabendo aos meios de comunicação de massa o poder de decidir os resultados da competição eleitoral. Por toda parte, no centro capitalista (e acreditamos que não seria diferente na periferia), foi consolidado um sistema político-eleitoral decididamente reduzido à lógica de mercado, com os postos eletivos mais importantes dependentes das contribuições às campanhas milionárias agora requeridas:

Nos nossos dias, assiste-se a um paradoxo: os que agitam a palavra de ordem da “democracia direta”, naturalmente não a que intervém nas fábricas e nos postos de trabalho mas a que prescinde da mediação dos partidos, são precisamente os adeptos do bonapartismo “soft”, segundo os quais quem designa o líder da nação (no âmbito do regime presencial) ou o líder de um determinado colégio eleitoral (no âmbito do sistema uninominal) deve ser o povo, privado dos seus meios mais modestos de autônoma produção espiritual e política e entregue, inerme, ao poder totalitário dos “mass-média” monopolizados pela grande burguesia (2004: 329).

A denominação de bonapartismo soft à democracia consolidada na segunda metade do século XX se justificaria por ser, segundo o autor, melhor que outras denominações correntes como, por exemplo, a de “elitismo democrático” (de matriz shumpeteriana), já que não mereceria o nome de democrática uma perspectiva que vê no absenteísmo das massas/apatia política algo positivo para o funcionamento do sistema. E Losurdo põe em dúvida até que perspectivas elitistas em voga possam ser consideradas liberais, tamanha a simpatia por um poder amplo à chefia do executivo, capaz “de decidir autonomamente sobre a guerra e o estado de exceção; em outras palavras, a ponto de usufruir de prerrogativas próprias apenas do despotismo, segundo o velho Kant” (2004: 325).

Por bonapartismo soft, o autor quer denominar a forma de ser dos regimes democráticos atuais, caracterizada pelo predomínio do poder executivo, exercido de forma personalizada, sobre os demais poderes e instituições da democracia liberal. O problema é que pretende dar status conceitual à denominação, quando poderia ser uma designação produtiva à compreensão de conjunturas concretas. Dessa perspectiva, talvez fosse mais pertinente falar em práticas políticas bonapartistas e explorar mais exaustivamente suas relações com os meios de comunicação de massa (com a cultura de massa de culto às celebridades, por exemplo), de forma a abordá-las como tendências dominantes às democracias liberais hoje (como também dá a entender sua análise). Até porque sua exposição dedica-se exaustivamente a demonstrar como “clássicos” do pensamento político liberal buscam mecanismos para impedir/neutralizar os efeitos emancipadores do sufrágio universal, mesmo que por meio da personalização da prática política. Ou seja, embora reconheça certa contradição entre liberalismo e personalização ampliada da política, a personalização política não é incompatível com a democracia liberal e/ou democracia burguesa, denominações mais apropriadas, no interior das quais as práticas bonapartistas cabem perfeitamente – isto é, não se trata de democracia ou bonapartismo. Práticas, sem dúvida, des-emancipadoras e corruptoras do longo e tortuoso processo de conquista de direitos nos séculos XIX e XX, que triunfou em tempos muito mais hierárquico/elitistas, mas cuja superação do retrocesso atual não é possível entrever:

O processo de emancipação que, nos últimos dois séculos, conquistou o sufrágio universal (uma cabeça, um voto), reivindicou a representação proporcional em nome do “mesmo valor representativo” de cada voto, associou direitos políticos a direitos sociais e econômicos, viu e celebrou a democracia como emancipação das classes, das “raças” e dos povos mantidos em condição de subalternidade – tal processo parece ter sofrido uma grave interrupção. Neste sentido, estamos diante de uma fase de “des-emancipação”, uma daquelas que caracterizam o caminho longo e tortuoso da democracia, mas cuja superação por ora não se consegue entrever. (2004: 333)

E para encerrar essa brevíssima resenha, uma questão: a partir da leitura do livro de Losurdo, seria possível concluir pela desaprovação contundente de experiências recentes no sentido da personalização da política em países da periferia capitalista, mesmo que se traduzam em ganhos sociais às massas e maior autonomia na condução da política face às “pressões imperialistas” (mormente quanto à política externa)? Baseados no autor, responderíamos que práticas políticas “bonapartistas” são sempre politicamente negativas, não há a menor dúvida, porém, na medida em que se confundem com o modo de funcionamento das democracias ocidentais, poderíamos concluir que menos mal se traduzidas em ganhos sociais às massas. Entretanto, se desaparecer a distinção entre “ditadura bonapartista de uma personalidade individual” e as práticas bonapartistas atuais (o bonapartismo soft), vinculadas ao culto das celebridades promovido pela cultura de massa em todo o mundo (aspecto que o autor deveria ter explorado), restringe-se ainda mais o espaço à luta política emancipatória, o que seria bem mais negativo.

 



 Escrito por angel às 11h58 [] [envie esta mensagem] []






O expansionismo brasileiro e o BNDES

Durante os governos Lula, uma política favorável ao fortalecimento do “capital nacional” ganhou força, na qual a internacionalização econômica constitui dimensão relevante. Longe de condenar a política econômica de incentivo ao fortalecimento do “capital nacional” (por meio do incentivo à conglomeração/internacionalização), gostaríamos apenas levantar questões, dúvidas a respeito do expansionismo brasileiro. Por exemplo, temos dúvidas sobre se seria o fortalecimento do capital nacional via internacionalização econômica o caminho mais promissor para o desenvolvimento, quando o país tem inúmeras carências infra-estruturais e um mercado interno em potencial que poderia ser expandido com mais investimentos em infra-estrutura local, sem falar nos problemas sociais prementes. Também suspeitamos do reforço “patrimonial” nas relações Estado-empresariado via financiamentos do BNDES, com os custos do diferencial nas taxas de juros recaindo sobre o Estado a fim de se sustentar/estimular a internacionalização de empresas nacionais. Duvidamos igualmente da autonomia da Instituição para cobrar do empresariado “eleito” metas de desempenho e o cumprimento das regras contratuais estipuladas (mormente, caso o “negócio” dê errado); ou do Estado brasileiro para manter a propriedade de empresas capitalizadas com recursos públicos predominantemente em “mão nacionais”. Por sua vez, o expansionismo recente tem trazido acusações crescentes de sub-imperialismo do Brasil sobre a América Latina (em estudos recentes, sobretudo da parte de acadêmicos e imprensa argentinos). Valeria a pecha de imperialista por causa de investimentos no campo das atividades primárias e/ou negócios no setor da construção civil/infra-estrutura básica, em países caracterizados pela instabilidade política (um fator de risco a mais, além do endividamento público)? Ademais, não estaria o expansionismo na contramão da alternativa integracionista, podendo dificultar ainda mais a concorrência com a expansão asiática na região? E se for para falar em “modelo coreano”, não seria melhor copiar a revolução educacional produzida naquele país, menos que o estilo “patrimonial” de desenvolvimento para fora?

 



 Escrito por angel às 18h47 [] [envie esta mensagem] []




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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 36 a 45 anos









 
 


 
 

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